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Na raiz da palavra mito encontramos o sentido das verdades eternas. Existem varias mitologias, mas os gregos nos brindaram com um conjunto de estórias interessantes sobre seus deuses e semi-deuses, seus amores
ódios, sofrimentos, conquistas e dificuldades. Deixaram um legado a nossa cultura cheio de ensinamentos sobre a conduta e o relacionamento humanos, sobre a resolução de impasses pessoais, sobre nossos excessos.
A nossa psique adora estórias, é movida por símbolos.
Quem tem filhos pequenos ou atende crianças sabe o quanto gostam de ouvir repetidas vezes uma lenda com riqueza de detalhes. Podemos usar estórias e contos de fadas para tratar nossos pequenos pacientes; elas
curam os sofrimentos da alma infantil e aos adultos convidam a reflexão.
Então para nosso deleite lá vai:
O grego Esopo nos conta que um dia um moleiro e o filho saíram para vender um burro que tinham numa feira. Ao passarem por um grupo de meninas escutaram:
“Olhem só , vão assim a pé quando podiam ir montados!”
Ouvindo o comentário, o velho disse ao filho que montasse no burro e prosseguiram a viagem.
Mais adiante encontraram um grupo de velhos e escutaram: “Estão vendo aquele tratante preguiçoso montado no burro, enquanto o pai tem que caminhar!”.
Ouvindo isso o pai mandou o filho desmontar e montou.
Pouco mais a frente algumas mulheres e crianças observaram: “Velho preguiçoso, como pode deixar o pobre menino assim que mal consegue acompanha-lo?”.
O moleiro bom homem, fez com que o filho subisse na garupa.
Mais a frente um aldeão questiona: “O burro é seu? Mas não parece pelo modo como o sobrecarregam”.
Pai e filho chegaram a cidade carregando o burro nas costas. Riram tanto deles que o burro irritado com o barulho fugiu.
O velho aborrecido convenceu-se de que querendo agradar a todos, não agradara a ninguém e ainda por cima perdeu o burro.
A visibilidade e a adesão a comportamentos tidos como “os do momento” nos fazem carregar o burro nas costas para longe das nossas necessidades pessoais. Quando se trata da aparência, fator importante na
adolescência a coisa fica muito pior. Nesta fase da vida, onde ser aceito pelo grupo é vital; ser diferente é a morte e cheira a exclusão.
Pesquisas em vários paises apontaram que quase totalidade dos jovens entrevistados mudariam algo em seus corpos baseados em padrões externos de beleza e saúde.
Hoje o corpo é nosso burro carregando um peso não mais um veiculo, meio de expressão, lugar de conforto e prazer. Corpo sofrido, mal amado, pouco aceito e condenado a toda sorte de
investigações. Corpo que perde aos poucos seu direito ao privado, a qualidade do mistério, do sagrado exposto, mutilado, coisificado.
E porque não?
A opinião dos amigos ganha seu status perto dos onze ou doze anos quando mudanças físicas e psicológicas prenunciam a adolescência. A tão falada identidade se constitui pela desconstrução. O que valia antes perde
terreno. Pais, professores perdem espaço para a turma, a galera e surge todo tipo de indisposições.
Há que confrontar com alguém ou com valores e regras; assim vou sabendo quem sou eu!
A vida em sociedade pressupõe algumas convenções, numa relação dinâmica e criativa sem a qual seria impossível o convívio. Mesmo após a adolescência, quando a pressão do grupo é quase um massacre continuamos
sujeitos ao que é desejável ou não em termos de comportamento e temos que lidar com outras influencias; a TV a propaganda, filmes ditadores de costumes novos.
Ser belo, ter sucesso, influência e poder, freqüentar lugares, são propostas como vacinas virtuais contra os foras que levamos da vida, não é mesmo?
O que fazer com o enorme contingente de jovens que direta ou simbolicamente através de seus distúrbios nos perguntam sobre o que fazer. Eles precisam de nós para se nortear e para se opor. Vir com o sedutor e
modernoso “Você é quem sabe” é perigoso.
O dialogo é fundamental assim como a presença para saber com quem estão, o que pensam, com o que sofrem. Total responsabilidade nossa, mesmo que eles discordem deste posicionamento.
Mas, e quando os pais estão fincados nas aparências? Quando eles mesmos não resolveram suas adolescências e ao invés de incorporarem a parentalidade são coleguinhas dos filhos competindo por juventude e
visibilidade?
Bem, aí abandonamos nossos lindos filhos. Não aprendemos a dizer não a todos as influencias, deixamos de pensar no que serve para nós, nas qualidades do ser, deixamos de funcionar como filtros estimulando a
convivência com as diferenças.
Pais são sustento, são modelos. Somente quando nos discriminamos do coletivo é que podemos ser sujeitos interessantes à comunidade.
Parece paradoxal? É não! Senão passaremos a vida “carregando o burro”
Jung, psiquiatra suíço refletiu sobre a tarefa de nos tornamos um sem que com isso fiquemos arrogantes. Ao contrário, sugere em seu volume O Desenvolvimento da Personalidade, que não
onerássemos nossos filhos com aquilo que não pudemos lidar em nós mesmos. Pensador de vanguarda aponta a necessidade de firmeza moral e humildade para percebermos como precisamos nos educar para termos uma personalidade integrada capaz de formar indivídos.
Parece que a questão é encontrar o ponto do meio entre as referencias externas e nossa subjetividade. Em nosso país, falando somente sobre a ditadura da beleza, temos observado grandes estragos.
O que há para ler:
- O Corpo no Limite da Comunicação-Rubens Kignel
- Corpo, Limites e Cuidados – Lídia Aratangi
- Adolescentes: Quem Ama, Educa! – Içami
- Fabulas de Esopo – Robert Mathias
Denise M. Molino é psicoterapeuta junguiana trabalha em seu consultório em São Paulo e Jundiaí, no atendimento clinico e na formação de jovens psicólogos.
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Dra. Denise Mondejar Molino
(CRP 06/6070)
Consultório em São Paulo:
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