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Se cada membro do casal leva consigo a historia de seus antepassados, costumes, hábitos e valores, imaginem o que pode ser esse encontro chamado
matrimonio.
Deste universo escolhi a relação sogra e nora para comentar pela ampla gama de experiências significativas que dormem debaixo dos preconceitos, piadas e das considerações pejorativas para com a
primeira.
O papel de sogra (mãe do marido) é visto com olhos desconfiados pois parece que a ele foi creditado tudo de pior que pode haver na figura da
santa mãe. Uma vez ouvi Dr. Angelo Gaiarsa, psiquiatra, dizer que o que se espera das mãe nem Jesus Cristo poderia dar conta. Acho que tem razão.
Nossa cultura coloca sobre este papel, através de um paradoxo, a dupla polaridade da situação ou seja, padecer no paraíso. À sogra coube a
representação do Inferno e à nora o papel de algoz. Ter a sogra em casa ou como companhia em viagens é tido como catástrofe a ser evitada: é uma juíza a conferir se seu amado filho é bem cuidado,
se tudo vai bem com as rotinas, a bisbilhotar e intrometer-se nas escolhas do novo par. É bem verdade que muitas dessas situações ocorrem mesmo, são objeto de queixas nos consultórios dos
psicoterapeutas e decorrem de dificuldades pouco compreendidas do encontro de duas mulheres em momentos muito importantes de suas vidas, incompreensão esta que enfatiza seu lado negativo.
Para a jovem mulher o casamento propõe uma sobrecarga psíquica pela mudança no desempenho de papeis onde deixará de ser filha, enfrentando desafios quanto a sua nova
casa, competências e o confronto com as diferenças com o marido. A vida profissional se já existir poderá ser objeto de duvida quanto a sua continuidade, mesmo atualmente quando
parece que as mulheres lidam melhor com seu desenvolvimento individual, quando dizemos que, a principio, podem ser muitas mulheres e por fim (porém não nesta ordem) a decisão sobre
a maternidade.
A sogra é uma mulher que envelhece, que necessita reorientar suas forças, talentos e sexualidade e que, conforme tenha sido sua vida amorosa,
sua maternidade, se teve profissão, vai colorir com determinadas características o momento de separar-se de seu outro amado, o filho e de entregá-lo a outra,
a nora.
O encontro sogra–nora que por vezes mais parece uma trombada tem como centro o mesmo homem e o posicionamento do filho-marido pode favorecer ou dificultar a relação destas mulheres. Pode ficar no
meio das duas, incrementando competições inoportunas e se “gratificando” com a confusão mas também pode ajuda-las a ocupar um lugar criativo.
Então qual será o caminho das pedras a ser percorrido com bravura (e não com braveza) já que o amor atrae para si grandes tarefas?
Proponho que pensemos na possibilidade de um dialogo interior com as diferenças e para a relação mãe e filha e sua problemática. Não estamos habituados a nos perguntar qual nossa responsabilidade
ou participação nos conflitos que temos pois como se diz o inferno são os outros e é lá que estão os defeitos de funcionamento. O trabalho que o amor propõe seria nos sentirmos implicados na situação e tirarmos desse impasse algo
positivo.
Na relação sogra e nora é como se uma visse a sombra da outra. Explico melhor: a sogra pode ver o que a mãe da jovem não via em virtude da proximidade e afetividade
exageradas. A nora idem, poderá ver em sua sogra aspectos de sua mãe não percebidos e assimilados. Ela, a sogra, também é uma outra .
Se pensarmos numa adoção recíproca é possível que o relacionamento entre estas duas mulheres traga muito para ambas. A mais velha pode ensinar e sugerir dentro de certos limites, pode aprender
a tomar distancia (maior do que a vivida como mãe), aguardar o tempo, respeitar suscetibilidades e preparar a mais jovem para ter filhos. A sogra passará pelo ponto da maternidade na
espiral de seu desenvolvimento num outro nível, abrindo espaços, “saindo de fininho”, cultivando a corujice. Poderá entregar seu filho e receber netos de
modo criativo sem precisar que eles sejam única extensão de suas posses e potencias. Como isso demanda trabalho interno e sacrificios feitos à vaidade!
Para a nora, uma grande experiência sem a garras da superproteção e vícios do relacionamento com a mãe pode ser estabelecida com sua
sogra. Também o que faltou pode ser vivido entre ambas em termos muito positivos de companheirismo e sabedoria. A jovem pode aprender a ouvir, considerar, aceitar ajudas e perceber
outras formas de fazer as coisas, assim enriquecendo seu repertorio como pessoa. Se um bebê chegar, a experiência do encantamento e devoção é uma chance renovada para sogra e para a jovem mãe uma descoberta partilhada em
companhia, o que é muito bom!
Denise M.Molino é psicoterapeuta ,especialista em Psicologia Clinica e atende em seus consultórios em São Paulo e Jundiaí.
(e-mail: dmmolino@hotmail.com).
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Dra. Denise Mondejar Molino
(CRP 06/6070)
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