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adaptação de Katharine Gibson
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"Havia quatro irmãs que viviam numa pequena
casa. As três mais velhas usavam vestidos de seda e tinham rendas em todas as
saias. A mais moça, entretanto, andava esfarrapada e fazia todo o serviço da
casa. Era, por isso, chamada Cinderela, a gata borralheira.
A mais velha era alta e magra, tinha nariz comprido e queixo pontudo. A segunda
era baixa e gorda, tinha nariz chato e era vesga. A terceira era coxa e
curvada para a frente. Além disso, era linguaruda. Cinderela, com todos os
remendos, era bonita e delicada. Tinha cabelos dourados e olhos azuis. A pele
era macia e as faces estavam sempre coradas.
Certo dia, um arauto do rei apareceu na cidade, empunhando uma trombeta e
anunciando:
- "Atenção, atenção!! Daqui a quinze dias, Sua Alteza Real, o Príncipe,
completará vinte e um anos. Sua Majestade, o Rei, dará um grande baile
para o qual estão convidadas todas as moças da cidade".
A notícia pôs a cidade em alvoroço. As modistas não tiveram mais descanso.
Não ficou uma só peça de fita ou de renda na cidade. Só os tecidos de
algodão sobraram nas lojas. Tafetás, cetins, brocados e galões dourados foram
vendidos no primeiro dia. Costureiras e alfaiates costuravam até as agulhas
furarem os dedais. Os sapateiros nem podiam mais dormir. Os cabelereiros
cortavam, frisavam e penteavam noite e dia.
- Usarei um vestido solferino, disse a irmã mais velha.
- Eu irei de verde, informou a segunda.
- Meu vestido será amarelo, continuou a terceira.
- Irmãs, suplicou Cinderela, vocês tem tantos vestidos! Se me emprestassem um,
eu poderia ir ao baile.
- Você ir ao baile? Onde já se viu uma coisa dessas? Disse a mais velha.
- Uma gata borralheira no palácio? Era só o que faltava! caçoou a segunda.
- Além de tudo, você é muito criança, concluiu a terceira.
Na noite do baile, as três irmãs apresentaram-se no palácio com vestidos
caros, leques de gaze e plumas na cabeça. Depois que elas saíram, Cinderela
sentou-se à beira do fogão, com seu vestido remendado. As lágrimas corriam-lhe
pelas faces. De repente, ouviu um ruído semelhante a um bater de asas e uma
sombra escura passou a seu lado. Olhou, assustada. À sua frente, apareceu uma
mulher de preto, segurando uma varinha. Usava uma capa larga e um chapéu alto,
como os palhaços.
- Por que está chorando? Perguntou a mulher.
- Quem é a senhora? Indagou a menina.
- Espere e logo saberá, respondeu a mulher.
Por baixo da aba do chapéu, seus olhos brilhavam como estrelas.
- Diga-me, porque está chorando? insistiu ela.
- Minhas irmãs foram ao baile do Rei e eu fiquei aqui sozinha. Só tenho este
vestido, velho e remendado.
E, pondo as mãos no rosto, começou a soluçar.
- Se continuar aí sentada, chorando, não poderá mesmo ir ao baile. Levante-se,
e faça tudo o que eu mandar. - - Há ratos nas ratoeiras? Perguntou a senhora.
Cinderela, muito admirada com a pergunta, respondeu:
- Há três no celeiro, três no sotão e dois camundongos na despensa.
- Apanhe as ratoeiras e leve-as para o jardim. Traga-me também a abóbora maior
que encontrar na horta.
Cinderela fez exatamente o que ela mandou. Repentinamente, a senhora tocou nas
ratoeiras e na abóbora com a varinha mágica e eis que elas se transformaram.
Os ratos viraram seis soberbos cavalos pretos. Os camundongos viraram dois
cocheiros elegantemente vestidos e a abóbora transformou-se numa linda
carruagem dourada. Depois, tocou o vestido de Cinderela com a varinha, e
imediatamente desapareceu aquele pobre vestidinho remendado, sendo substituido
por um riquíssimo vestido de baile. Em seus pés apareceram lindos sapatinhos
de cristais.
- Cinderela, disse a senhora. Vá e divirta-se, mas, preste atenção: quando o
relógio der meia-noite, volte para casa sem demora. Se não o fizer, os cavalos
voltarão a ser ratos, os cocheiros, camundongos, e a carruagem será novamente
uma abóbora. Quanto ao seu lindo vestido, minha querida, voltará a ter
remendos. Preste atenção ao relógio. Não se esqueça!!!
- Não me esquecerei, prometeu Cinderela, mas, quem é a senhora?
- Sou sua fada madrinha. Lembre-se bem de tudo o que lhe disse.
- Lembrar-me-ei, prometeu a mocinha.
Antes que Cinderela pudesse lhe agradecer, a senhora desapareceu, como por
encanto. Quando a carruagem chegou ao palácio, os criados ficaram tão
admirados, que os botões saltaram de seus coletes apertados. Com os olhos
arregalados, acompanhavam a linda moça, qua saltou da carruagem.
Quando ela entrou no salão, o príncipe, que dançava com uma duquesa, foi
imediatamente ao seu encontro e não dançou com mais ninguém. A música era
tão agradável e o príncipe tão encantador que, quando o relógio deu a
primeira badalada da meia-noite, Cinderela não se apercebeu disso. Ao bater a
segunda, porém, ela teve a impressão de ver a fada num canto do salão.
Lembrando-se, então, de tudo, deu um grito abafado e saiu correndo. O príncipe,
com grande espanto, viu-se sozinho no meio do salão. Procurou em vão pela
linda princesa com quem havia dançado.
Cinderela fugiu pelos corredores do palácio e precipitou correndo pelas
escadarias que levavam aos jardins justamente quando o relógio dava a última
pancada da meia-noite. O príncipe veio correndo atrás dela, mas não conseguiu
alcançá-la. No fim das escadarias, encontrou apenas uma pobre moça, chorando
na escuridão. Seis ratos pretos iam correndo à procura de queijo, e dois
camundongos os seguiam. Uma abóbora grande rolava pela rampa das carruagens.
O príncipe olhou bem para todos os lados, mas não conseguiu ver a princesa.
Muito triste, começou a subir os degraus. De repente, seus olhos avistaram
alguma coisa que brilhava como uma jóia. Ajoelhou-se e apanhou um sapatinho de
cristal, tão pequeno que cabia na palma de sua mão. Guardou-o no bolso, com
muito carinho, na esperança de, por meio dele, encontrar a princesa. O rapaz
ficou tão desolado que não podia dormir nem comer. O Rei enviou mensageiros
para todos os lados do reino, à procura de uma moça, cujo pé fosse tão
pequenino que coubesse naquele sapatinho.
No dia seguinte, Cinderela, novamente maltrapilha, pôs-se a fazer seu serviço.
Seu pensamento, entretanto estava no príncipe. Suas irmãs estavam mais azedas
do que nunca, e não falavam noutra coisa, senão na estranha princesa que
estivera no baile.
- Onde já se viu coisa igual? O príncipe não dançou conosco. O tempo todo
só deu atenção àquela estranha princesa. Dizem que ela é filha do imperador
das Índias, disse uma das moças.
- Seu vestido era tecido com fio de diamantes, informou a segunda.
- Filha do imperador das Índias? perguntou Cinderela, curiosa.
- Trate de esfregar o chão. Que tem a ver você com a vida do príncipe?
Vociferou a mais velha.
Durante muitos dias, os emissários do Rei viajaram pelo país. Visitaram
cidades grandes e pequenas, aldeias e povoados. Em todas elas, as moças se
alvoroçaram, ansiosas por casar com o príncipe.
Finalmente, os mensageiros chegaram ao pequeno quarteirão onde Cinderela vivia
com as irmãs. Suas trombetas douradas brilhavam ao sol, anunciando: "Aquela
que calçar o sapatinho, será a esposa do príncipe". Moças de todos os
tipos apresentaram-se, porém o sapatinho não servia em nenhuma. Afinal,
chegaram à casa de Cinderela.
A irmã mais velha foi a primeira a aparecer, mas apenas seu dedo grande coube
no sapato. A segunda experimentou, mas o calcanhar ficou do lado de fora. Veio a
terceira, mas só a metade do pé entrou.
- Deixe-me experimentar, pediu Cinderela.
- Você, uma princesa! zombaram as irmãs. Rainha do borralho!!! Isso sim,
caçoaram elas.
Enquanto elas riam, o chefe dos mensageiros ajoelhou-se à frente de Cinderela e
calçou-lhe o sapatinho que coube perfeitamente em seu pé.
- A Senhora será a esposa do príncipe. Venha conosco, Sua Alteza.
Cinderela acompanhou-os ao palácio. Havia uma multidão na calçada para vê-la.
Os homens estavam apenas curiosos, mas as moças choravam de inveja.
O príncipe, quando a viu, não reparou nos remendos de seu vestido, nem nas
manchas de cinza que trazia nas faces. Viu apenas aquele rostinho tão querido
que ele ansiava tanto rever. Por ordem do Rei, foi anunciado que o casamento se
realizaria no dia seguinte. A festa durou dez dias e dez noites. As irmãs de
Cinderela dançaram só com os empregados da estrebaria. Cinderela e o príncipe
formaram o casal mais feliz do mundo. E o reino povoou-se de amor e alegria pela
felicidade dos dois."
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